
Assim como na psicose, ainda que não ao modo psicótico, o sujeito contemporâneo experimenta uma verdadeira desordem na junção mais íntima do seu sentimento de vida. Nos termos de uma prática orientada pelo real e consequente com a orientação dada por Lacan em Função e campo da fala e da linguagem¹ é que Miller falará em sua conferência O real no século XXI daquilo que faz furo no saber do mestre contemporâneo e regula a subjetividade de nossa época: trata-se de um real sem lei, que escapa da natureza e não funciona mais como garantia da ordem simbólica.
Retornando ao Seminário 3, veremos Lacan interrogar-se, não sem provocar seus interlocutores, sobre o que assegurava a Aristóteles, na natureza, da não mentira do Outro enquanto real. O que, “senão as coisas, na medida em que elas voltam sempre ao mesmo lugar, ou seja, as esferas celestes?²”, ele indaga.
Segue-se uma reflexão sobre como era até então impossível descolar o pensamento dos filósofos, bem como dos teólogos e dos físicos, da ideia da essência superior das esferas celestes. Do que Lacan está falando é que, até certo momento da história da civilização, Deus existia, portanto, havia saber no real. Era possível ler nas entrelinhas do hemisfério celeste uma proliferação de sentido que situava o universo numa lógica antropocêntrica.
Se Galileu foi declarado herege pela Igreja Católica, foi porque suas teorias sacudiam profundamente as órbitas do mundo. O mesmo se pode dizer de Giordano Bruno e das bruxas. A humanidade sofria violentas feridas narcísicas.
Nas palavras de Miller, “com o universo infinito da física-matemática, a natureza desaparece; com os filósofos do século XVIII, ela se torna apenas uma instância moral”³. Este é o marco para se falar do real no século XXI, fruto do estremecimento da ordem simbólica vigente e da aliança entre capitalismo e ciência.
É da ciência moderna que a psicanálise extrai seu próprio fio, na medida em que com o cogito cartesiano, inaugura-se uma relação de causalidade entre a ciência e a posição de sujeito. A consequência disso, para o Lacan de A ciência e a verdade, é que o sujeito sobre o qual opera a psicanálise é o sujeito da ciência. Uma psicanálise cujo trabalho, no século XXI, é ler o sintoma; mais, ainda, ir em direção à leitura do fora do sentido.
Partindo do marco que é o real, é que Lacan, em Radiofonia, fala da ascensão ao zênite do objeto a como uma característica de nosso tempo. Um índice, traduzirá Miller mais tarde, coerente com a época do Outro que não existe, que é também, e não por acaso, a época da psicose ordinária. Se o sujeito suposto saber é Deus, ponto, só isso (grifo nosso), como assevera Lacan, aquilo que hoje dá condição à existência do discurso é de natureza diametralmente oposta ao real gnóstico que ele situa no Seminário 3.
Eis o impasse:
A mais-valia não deixa de animar o mundo. ‘É a causa do desejo, do qual uma economia faz seu princípio: o da produção extensiva, portanto insaciável, da falta-de-gozar. Esta se acumula, por um lado, para aumentar os meios dessa produção como capital. Por outro lado, amplia o consumo, sem o qual essa produção seria inútil, justamente por sua inépcia em proporcionar um gozo com que possa tornar-se mais lenta’.4
Laurent localiza o discurso capitalista como um efeito particular do discurso do mestre contemporâneo. Em sua leitura, “esse discurso produz o objeto a, cavando a falta da mais-valia. A mais-valia foracluída é um significante e, como tal, retorna no real como gozo”5. O “Jouir sans entraves / sans temps mort” – que soa “gozar sem limites, sem tempo morto” (tradução nossa) -, inscrição fotografada nas ruas de Paris por Cartier-Bresson em Maio de 68, é extensamente problematizado por Lacan no Seminário 17, que o toma como um slogan dos sujeitos contemporâneos. Para Lacan, significa um gozar sem o simbólico e sem o significante; sem sua incidência, que implica numa mortificação.
Isso diz, mesmo escancara, como em nosso tempo há uma prevalência do imperativo de gozo legiferante e um afrouxamento da lei, decorrentes do estremecimento da ordem simbólica e do esvaziamento do valor da palavra. Aponta, também, para os efeitos mais sensíveis do que a clínica psicanalítica pôde recolher da relação entre cultura e subjetividade.
Segundo Miller, a partir do momento em que as normas se diversificam estamos na época da psicose ordinária. Para Sophie Marret-Maleval, esta observação parece indicar que as sociedades contemporâneas oferecem uma variedade mais importante, porém mais discreta, de suplências possíveis pela superidentificação a uma norma.
Neste sentido, é interessante destacar a forma clássica da melancolia como uma bússola diagnóstica preciosa para a psicose ordinária – uma aproximação essencialmente pautada na identificação do melancólico ao objeto e que combina com a fragilidade no funcionamento do S1, significante da identificação primordial, própria de nosso tempo.
Em outras palavras, com a queda dos significantes mestres, o que há é uma falha na operação de significantização do gozo que deixa os sujeitos a sós com seu mais-de-gozar.
Como não se perguntar, então, sobre como as pessoas andam vivendo hoje? Se o sintoma tem um status ético para a psicanálise, na medida em que é formação de compromisso, que soluciona parcialmente para o sujeito a contenda entre seu gozo e seu desejo, quais são estes sinais que vêm dizer desta paradoxal forma de satisfação?
As atuais modalidades de sintoma sem o Outro, ou seja, que não se referenciam no Outro, como os fenômenos psicossomáticos, são um exemplo contundente do modo contemporâneo de fazer sintoma. As denominadas ansiedades, geralmente um diagnóstico bastante genérico, igualmente lotam os consultórios. O mesmo vale para o pânico, os transtornos alimentares, a depressão. Vemos como em cada um, à sua maneira, esboça-se uma problemática ligada ao objeto sem véu.
Um questionamento tal qual “mas como é esta sua ansiedade?”, não raro vem seguido de um silêncio ou de uma expressão de estranheza, como se não fosse necessário dizer mais nada. Contudo, o que se revela é uma escassez do recurso do Outro do significante. Há aí um modus operandi no qual cada um é tocado em seu íntimo, sem subterfúgios, o que remete ao traumatismo e à fantasia, que para muitos é o que há de mais secreto e indizível.
Não há como deixar de notar que isso afeta os sujeitos em cheio no seu sentimento de vida, que nada mais é do que aquilo que serve para orientar a existência, dar-lhe algum sentido.
Parafraseando Maleval, “podemos traduzir ‘junção íntima do sentimento de vida’ como o que faz junção para o sujeito, de a, o nó da vida, com a linguagem, por meio do S1”6. Na instância mais íntima – êxtima -, aquela entre ser e furo, o sentimento de vida é o que faz borda. Um pequenino detalhe como o de Maurício Tarrab7, que pôde fazer a travessia de seu sopro no coração como escrita de morte, para um respiro de vida.
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Notas
¹ LACAN, J. (1998[1966]). “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 322.
² LACAN, J. (1988[1955-1956]). O seminário, livro 3: as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, p. 82.
³ MACHADO, O; RIBEIRO, V. (org.). (2014). “O real no século XXI”. In: Um real para o século XXI. Belo Horizonte: Scriptum, p. 27.
4 LAURENT, E. (2007). “A sociedade do sintoma”. In: A sociedade do sintoma: a psicanálise, hoje. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, p. 164
5 IDEM. (2007). A sociedade do sintoma. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, p. 164.
6 MARRET-MALEVAL S. (2017). “A junção íntima do sentimento de vida”. In: Opção Lacaniana Online, nova série, ano 8, p. 13-14. Disponível em: < http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_23/A_juncao_intima_do_sentimento_de_vida.pdf >. Recuperado em 10/03/2019.
7 TARRAB, M. (2008). “Entre o relâmpago e a escritura”. In: Opção Lacaniana – Revista Brasileira Internacional de Psicanálise. São Paulo: Eolia, nº 51, p. 94-100.
Referências bibliográficas
LACAN, J. (1998[1958]). “A ciência e a verdade”. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 869-893.
LACAN, J. (2003[2001]). “Radiofonia”. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 400-447.
LACAN, J. (1988[1955-1956]). O seminário, livro 3: as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
MARRET-MALEVAL S. (2017). “A junção íntima do sentimento de vida”. In: Opção Lacaniana Online, nova série, ano 8. Disponível em: < http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_23/A_juncao_intima_do_sentimento_de_vida.pdf >. Recuperado em 10/03/2019.