
Comentário referido na segunda atividade preparatória para a VI Jornada da EBP Seção Sul (2025) sobre o Eixo 1 - O gozo e a época.
ㅤ ㅤㅤQuando Lacan fala da ascenção ao zênite social do objeto a, ele está fazendo uma leitura da trajetória do objeto a na civilização. É um caminho que nos leva diretamente ao discurso do capitalista e seus efeitos.
ㅤ ㅤㅤEstamos na época do não-todo. “Há que se olhar as coisas uma por uma. Ideias gerais estão passadas de moda”¹. O real sem lei torna-se o sentido comum da época, corroendo os semblantes da natureza. Não é um ponto de real que retorna sempre ao mesmo lugar; mas o mundo se convertendo no real. Efeito do casamento capitalismo-ciência. A ideia de autoridade única, do superior ou do excluído – peças da lógica paratodista – resta rechaçada.
ㅤ ㅤㅤCom o divórcio entre ciência e religião, fica exposto que não sabemos o que é o gozo a partir do qual nos orientar. Foi aí que Lacan previu uma escalada do racismo: “no desatino de nosso gozo, só há o Outro para situá-lo, mas [estando] separados dele”².
ㅤ ㅤㅤNas manifestações de gozo atuais sempre há um espaço para entrever as diferentes formas que assume o ódio ao gozo do Outro. Para Laurent “estes gozos múltiplos fragmentam o laço social, daí a tentação de apelo a um Deus unificador”³. É o Deus do capitalismo. Odeia-se o patriarcado, mas os imperativos capitalistas continuam intactos e insaciavelmente produzindo a falta-de-gozar.
ㅤ ㅤㅤContudo, a pergunta que fica insistindo desde que li o título “Cadê o gozo?” é: cadê a mulher? Ou melhor, cadê o gozo feminino? Não é certo que o sujeito contemporâneo seja este que tem um enigma sobre seu gozo. Tudo está aí sendo ofertado para que o enigma não exista. Que se diga fica esquecido por trás do que se diz no que não se ouve⁴.
ㅤ ㅤㅤLuiz Fernando Carrijo⁵ observa que ante o gozo feminino o supereu impõe uma lei de ferro. Portanto, o supereu é racista. Então, quero trazer sobre os efeitos do encontro com o gozo da época uma questão simples: como respirar, na medida em que para a psicanálise, respiramos no Outro? Tratar do singular, do mais opaco do gozo no sintoma, pode ajudar o ser falante a respirar melhor em seu exílio interior? Ainda falamos de gozo, mas daquele entre centro e ausência…
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¹ MILLER, J.-A. (2013). “Piezas sueltas”. Buenos Aires: Paidós.
² LAURENT, E. (2014). “O racismo 2.0”. < https://pt.scribd.com/document/452396492/LAURENT-Eric-Racismo-2-0-Lacan-Cotidiano-pdf >.
³ IDEM.
⁴ Referência à conhecida frase de Lacan em O aturdito: “Que se diga fica esquecido por trás do que se diz em o que se ouve”.
⁵ Luiz Fernando Carrijo é Membro da EBP/AMP e AME.