Trabalho apresentado na Noite de Cartéis da Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Sul sobre “O fazer do Mais-Um” em 26 de agosto de 2026.
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ㅤ ㅤㅤPara Lacan, o sujeito é uma resposta do real. Um sujeito por advir questiona o Outro do significante e recebe dele uma resposta cujo efeito de significação batiza-o como sujeito dividido.
ㅤ ㅤㅤAfinada com $, a posição analisante é a que ensina. No cartel, o sujeito dividido precisa comparecer e ensinar ao cartelizante o bê-á-bá de sua hipótese, sua pequena tese, ajudando a achar no palheiro a agulhosa questão que tece o trabalho.
ㅤ ㅤㅤPensando que Lacan propõe no Seminário 6 que o sonho é uma armadilha de pegar desejo via discurso do Outro e que o cartel está remetido à estrutura transindividual do inconsciente – outro nome do discurso do Outro -, podemos tomar o próprio cartel como uma armadilha de pegar desejo via questão que desperta.
ㅤ ㅤㅤTomar a armadilha como uma enganação seria enganar-se com o significante. Pensemos a armadilha como a estrutura que precisa ser construída para que o cartel se constitua um meio de caçar o desejo.
ㅤ ㅤㅤO dispositivo do cartel precisa ser acolhido por cada integrante, que lhe dará um lugar na subjetividade. Mas para que isso aconteça, as engrenagens precisam começar a rodar. Qual dia é possível? Que horário e periodicidade são possíveis? Os encontros podem ser presenciais ou não?
ㅤ ㅤㅤEstamos no terreno do possível. O cartel pode ou não se constituir. Quando os ponteiros se ajustam e um modo de funcionamento se instaura, não pára de se escrever, é índice de que o tempo se infiltrou e o possível se transformou em necessário. Existe um autômaton, um organismo.
ㅤ ㅤㅤPara que o cartel se constitua, é necessário integrar o real do organismo ao imaginário do corpo via artifício simbólico. A consistência corporal que faz do cartel um cartel produz-se na medida em que circula a função do Mais-Um. Essa circulação vital ao cartel delineia com seu próprio movimento o laço que une os três registros. Poderíamos pensar, então, no Mais-Um fazendo função de sinthome?
ㅤ ㅤㅤCom esta introdução, quero destacar uma força que é indissociável ao trabalho do cartel, mas que ao mesmo tempo põe um desafio a seu funcionamento: “a ordem simbólica ao mesmo tempo não sendo e insistindo para ser, eis a que visa Freud quando nos fala da pulsão de morte como sendo o que há de mais fundamental – uma ordem simbólica em pleno parto, vindo, insistindo para ser realizada”¹, diz Lacan.
ㅤ ㅤㅤEngavetar saberes prévios, fazer uma pergunta, ler a resposta embutida na pergunta e a pergunta dentro da resposta, ouvir a questão dos outros, escutar algo novo ou se escutar diferente. Sendo o cartel um trabalho que usa a ferramenta do simbólico, como tratar os empuxos da pulsão de morte que podem aparecer?
ㅤ ㅤㅤO Mais-Um faz função do real: produz a posição de sujeito e provoca a elaboração de um saber articulado às respostas do real. Mas diferente de “fazer função”, que é semblantizar, o real pode aparecer no cartel na sua faceta de pulsão de morte, como índice da dificuldade em suportar a posição de divisão entre “isso que ainda não é, mas insiste para ser parido”. Uma resposta pode vir no real via acting out ou passagem ao ato.
ㅤ ㅤㅤComo faz o Mais-Um diante disso? Não é uma boa estratégia calar o real, pois o próprio cartel pode acabar se convertendo nele. O que não cessa de não se inscrever pode impregnar o organismo do cartel a ponto de tornar seu andamento impossível.
ㅤ ㅤㅤ“Há que se confrontar com o vazio, com um enlouquecimento, com uma desorientação”², diz Miller. Diante das desorientações do real, não há doxa lacaniana, mas Orientação Lacaniana. A singularidade da Orientação Lacaniana é orientar-se pelas respostas do real.
ㅤ ㅤㅤA Orientação Lacaniana é o primado da prática porque permite a contingência. Por aí, o cartel também é uma armadilha de caçar contingência. Há a ordem simbólica em pleno parto nas elaborações. Há a conversação, que faz circular a palavra e desarticula a pulsão de morte. E há também a dissolução.
ㅤ ㅤㅤNessa tensão, a surpresa pode emergir como resultado da espera e da função da pressa. Ao menos foi o que aprendi desta primeira experiência como Mais-Um. Era nosso último encontro e uma das integrantes falava de uma palavra que alude aos barulhos da língua. Sem perceber, produziu um neologismo muito divertido que conjugava essa palavra a um objeto de satisfação pulsional. Isso acabou virando seu trabalho e o cartel literalmente se dissolveu no riso. Como diz Marcus André Vieira, às vezes o impossível acontece. E como diz Miller, “não diremos que o Outro é alegre – porque o Outro não existe -, mas que podemos sê-lo com a condição, não de descobrir o saber, e sim de construí-lo e inventá-lo”³. E não é isso que fazemos em um cartel?
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Notas
¹ LACAN, J. (1985). “O SEMINÁRIO — Livro 2: o eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 438.
² MILLER, J.-A. (2011). “Extimidad”. Buenos Aires: Paidós, p. 214.
³ Idem, p. 468.